Para esquecer a embreagem
Câmbio automático, manual automatizado ou CVT? Compare as opções em três modelos: 206 SW, Meriva e Fit.

 


Sem embreagem

À primeira vista, os modelos deste comparativo pouco têm em comum. A Chevrolet Meriva é uma minivan compacta o Honda Fit, um hatchback e a Peugeot 206 SW, uma perua pequena. Mas uma análise mais detalhada mostra interessantes semelhanças e, mais que isso, a curiosidade de cada um em oferecer uma opção distinta para dispensar as trocas de marcha e o pedal de embreagem: câmbio manual automatizado no modelo da GM, de variação contínua (CVT) no da Honda e automático comum, com operação manual seqüencial, no da Peugeot.

Os três modelos têm proposta similar, pois trazem cinco portas, perfil familiar, bom espaço para passageiros e razoável para bagagem. Em porte, a variação de comprimento é de 21 cm, enquanto a distância entreeixos oscila em 18 cm. A potência com gasolina é próxima &mdash 105 cv no Fit, 110 na Peugeot e 112 na Meriva &mdash, embora obtida de diferentes cilindradas: 1.5, 1.6 e 1.8 litros, na ordem.

E, não menos importante, estão na mesma faixa de preço. A 206 automática em versão única custa 54 mil reais. A Meriva, que só traz o câmbio Easytronic no acabamento Premium, parte de 54,3 mil e chega a 58,9 mil reais com opcionais. Mais caro, o Fit EX com CVT tem preço fixado em 57,5 mil reais, mas vem com equipamentos de série que são cobrados à parte ou não estão disponíveis em outros veículos.

Análise técnica

As potências até que próximas são obtidas por motores de configuração diferente. Com menor cilindrada &mdash 1.5 litro &mdash, o Fit recorre à tecnologia com comando variável VTEC e quatro válvulas por cilindro, estas também em uso no 1.6 da 206 SW. A Meriva ampara-se no deslocamento de 1.8 litro e, mesmo sem tais recursos, sai à frente tanto em potência quanto em torque: 112/114 cv (gasolina e álcool, respectivamente) e 17,7 kgf.m, ante 110/113 cv e 14,2/15,5 kgf.m da Peugeot e 105 cv e 14,2 kgf.m do Fit, sendo necessária uma maior rotação para chegar ao torque máximo desses dois modelos.

O VTEC do Fit de 1.5 litro atua no tempo de abertura e no levantamento das válvulas de admissão (não afeta as de escapamento). Em baixas e médias rotações, uma válvula abre-se por inteiro e a outra levanta-se pouco, só o bastante para dar vazão à mistura ar-combustível, que de outra forma ficaria acumulada no duto. Em alta, a segunda válvula passa a abrir toda para maior enchimento dos cilindros. A variação é comandada pela central eletrônica para um pino de atuação hidráulica. O motor tem apenas um comando, apesar das 16 válvulas.

A maior diferença está nos câmbios. O da 206 é um tradicional automático com conversor de torque, de quatro marchas e dotado de seleção manual seqüencial de marchas na alavanca. No Fit é usado o câmbio de variação contínua ou CVT (saiba como funciona, na edição de maio de 2007 do Oficina Brasil), enquanto o Easytronic da Meriva é uma caixa manual comum, só que associada a um comando automático das trocas de marcha (com opção por mudanças manuais seqüenciais, conheça mais nas matérias de Carlos Napoletano) e da operação da embreagem &mdash veja no quadro comparativo as diferenças de funcionamento entre os sistemas.

A 206 SW mantém uma receita tradicional na França para a suspensão traseira, com braço arrastado e barra de torção. O sistema permite total independência entre as rodas e invade menos o compartimento de bagagem que o de eixo de torção com molas helicoidais, usado nos outros modelos do comparativo. Mas há uma tendência de se adotar o eixo de torção também na indústria francesa, como já aconteceu com Peugeot 307, Citroën C3 e C4 e Renault Clio e Mégane &mdash em todos esses casos, o modelo que os precedeu usava o conceito tradicional do país.

O Fit é o único dos três a usar assistência elétrica de direção, em que um motor elétrico substitui a bomba hidráulica da assistência convencional. Entre as vantagens estão: menor consumo de energia do motor, ausência de fluido (o que reduz a manutenção e é benéfico ao meio ambiente) e a facilidade para o fabricante de ampliar a assistência quando desejado, como no sistema Dual Drive do Fiat Stilo. A Honda, porém, não aproveitou essa possibilidade.

Apenas a 206 SW é completa em iluminação e sinalização, com faróis de duplo refletor, ajuste elétrico de altura do facho, unidades de neblina à frente e atrás, terceira luz de freio e repetidores laterais das luzes de direção. No Fit faltam o duplo refletor, o ajuste elétrico e as luzes de neblina já na Meriva, não existem os repetidores &mdash que a Honda adotou nos retrovisores da versão EX.

Ao volante

A distinção entre os motores é notada com facilidade ao dirigir os três carros. O da Peugeot e, sobretudo, o da Honda têm um tempero esportivo, que convida a explorar as altas rotações, em que entregam seu melhor desempenho com baixo nível de vibração. No Fit, percebe-se quando o VTEC entra em ação e altera o diagrama de comando, pois o motor ganha ímpeto e até um ronco mais encorpado. O da GM, pelo contrário, está bem disposto desde baixos regimes e ganha certa aspereza acima de 4.000 rpm, embora tenha evoluído muito nesse aspecto com a reformulação feita na linha 2006. O nível de ruído dos três está dentro do aceitável, com destaque para o silêncio do Fit em marcha lenta. E o desempenho do Honda é superior pelo menor peso e a eficiência do CVT.

É no câmbio que estão as mais interessantes diferenças. São três modos de atender à mesma demanda: a de um sistema que efetua as trocas de marcha de modo automático e dispensa o uso do pedal de embreagem para conforto no uso urbano e facilidade de condução.

Para o motorista leigo, pode parecer tudo a mesma coisa: move-se a alavanca seletora para a posição de movimento (A na Meriva, D nos outros), acelera-se e o carro anda, trocando de marchas por si só. Mas há muitas diferenças por trás disso, tanto do ponto de vista técnico quanto do de utilização. O CVT é, por definição, o mais suave, já que não existem marchas definidas: apenas duas relações extremas, entre as quais a caixa escolhe a mais adequada a cada condição, com variação gradual à medida que a velocidade cresce ou diminui.

Além do benefício para a economia, isso torna o Fit confortável para os passageiros, mas pode não agradar a quem gosta de ouvir o motor, pois há pouca variação de rotações enquanto se ganha velocidade. A Honda poderia contornar isso ao oferecer comando manual, que simula sete marchas, disponível em outros mercados. Na posição normal de uso, D, ele acrescenta duas marchas (S e L) que produzem maior rotação, útil para aclives e declives ou para deixar o carro mais ágil.

No meio-termo está o câmbio automático da 206 SW, com quatro marchas e conversor de torque, que por seu deslizamento torna mais suaves as mudanças que em uma caixa manual. Suaves, mas não muito: sua calibração nos pareceu a pior entre os automáticos da Peugeot e da Citroën, com hesitação para reduzir marchas ao comando do acelerador e alguns trancos &mdash caso da mudança de segunda para primeira quando se deixa a velocidade baixar. De resto, por definição, esse tipo de câmbio é o que mais penaliza o desempenho e o consumo entre os três. Entretanto, permite trocas manuais seqüenciais (sobe para a frente, reduz para trás), impossíveis no Fit nacional.

A expectativa era pelo automatizado da Meriva, que foi o primeiro do tipo em um carro nacional, precedendo por semanas o Stilo Dualogic. O sistema Easytronic, que desde 2000 equipa o Corsa alemão, permite escolha entre mudanças automáticas e manuais seqüenciais &mdash está da mesma forma que na 206. Liga-se o carro em ponto morto, com o pé no freio (obrigatório), e então se move a alavanca para a esquerda para a posição A, de automático. Mais um toque à esquerda e se comuta entre A e M (manual). A ré fica para trás do ponto morto e não existe a posição de estacionamento (P).

Quem está habituado ao câmbio automático comum terá de rever seu modo de dirigir, sob pena de obter movimento excessivo da carroceria a cada mudança de marcha, quando a aceleração é cortada pelo sistema. Tanto em operação manual quanto em automática, o correto é aliviar o acelerador na hora das trocas, que serão feitas com relativa suavidade. Se esse aprendizado pode não agradar, a caixa tem vantagens, como manter o desempenho e o consumo do câmbio manual &mdash a GM anuncia até maior economia em modo automático &mdash, ser a mais barata entre os três tipos e contar com recursos de proteção (leia no quadro comparativo), o que a torna mais fácil e segura de usar que a manual para motoristas inexperientes.

As suspensões se parecem na prioridade ao comportamento dinâmico em detrimento do conforto. A melhor no equilíbrio entre esses quesitos é a Peugeot, que contorna curvas muito bem e não penaliza os ocupantes. A Meriva é inferior em comportamento &mdash embora não comprometa em uso normal &mdash e as molas um tanto duras transmitem mais os impactos do piso. No Fit, que é muito bom em estabilidade, o problema está nos amortecedores firmes ao extremo, que trazem à cabine até as menores oscilações do piso. Chega a incomodar. Faltam-lhe também batentes hidráulicos nos amortecedores, que evitariam o ruído de fim de curso ao passar mais rápido por lombadas.

A assistência elétrica de direção, como no Fit, costuma ser vantajosa em termos de maciez em baixa velocidade, mas não neste caso: é apenas mediana, não melhor que nos sistemas hidráulicos da Meriva e da 206. Mas os três estão bem calibrados em alta, com respostas precisas e peso correto. Os freios do Honda e da Peugeot vêm de série com sistema antitravamento (ABS), opcional na Meriva, só que a marca francesa usa discos na traseira. As respostas ao pedal estão no padrão adequado em todos.

Para concluir, uma posição final sobre os câmbios que motivaram este comparativo. O automático tradicional da 206 SW, embora não comprometa, deixa a desejar em suavidade, tem apenas quatro marchas e representa aumentos de custo e consumo relevantes. O CVT do Fit é uma grande solução pelo conforto e pela eficiência, mas não agrada a quem curte dirigir, ao menos enquanto não tiver a seleção manual de "marchas" oferecida no exterior (quem sabe na segunda geração a ser lançada este ano no Brasil?). E o manual automatizado da Meriva mostrou-se uma válida alternativa, pois mantém o controle do motorista sobre as marchas quando desejado, não afeta desempenho e consumo e tem custo atraente.

extraído do site oficinabrasil.com.br

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